O meu pai andava descalço e fundou um grupo familiar que vai na terceira geração

O meu pai andava descalço e fundou um grupo familiar que vai na terceira geração

A entrevista de José Azevedo Pinto, CEO da Procalçado (detentora das marcas Lemon Jelly, Wock e For Ever), membro da 3ª geração da empresa familiar, é mais do que uma conversa sobre uma marca de calçado. É sobretudo uma reflexão sobre empresa familiar, inovação, internacionalização e construção de marcas com valor acrescentado.

1. O legado familiar como fonte de identidade

José Pinto começa por destacar a origem humilde da empresa e da família:

“O meu pai andava descalço e fundou um grupo familiar que vai na terceira geração.”

Esta afirmação não surge como um exercício de nostalgia, mas como um reconhecimento de que o crescimento da empresa assentou em trabalho, perseverança e capacidade de adaptação. Demonstra orgulho por a família ter conseguido preservar o negócio ao longo de três gerações sem perder a sua identidade.

2. A maior inovação foi deixar de vender apenas componentes

Um dos aspetos mais interessantes da entrevista é a explicação da transformação estratégica da empresa.

A Procalçado começou por fabricar componentes (solas), um negócio industrial pouco visível para o consumidor final. A decisão de criar marcas próprias representou uma mudança radical:

  • deixou de competir apenas por preço;
  • passou a controlar design, posicionamento e distribuição;
  • aproximou-se diretamente do consumidor.

A Lemon Jelly nasce precisamente desta visão: transformar um produto funcional (como a galocha) num artigo de moda e design.

3. Inovação significa criar valor, não apenas tecnologia

Esta lógica permitiu escapar à competição baseada exclusivamente em custos, particularmente relevante num setor muito pressionado pela concorrência asiática.

Ao longo da conversa fica claro que José Pinto encara inovação de forma abrangente, que inclui:

  • novos materiais;
  • sustentabilidade;
  • design;
  • marketing;
  • construção de marca;
  • experiência do consumidor.

Ou seja, a inovação não está apenas na fábrica; está na forma como o produto é concebido, apresentado e vendido.

4. Internacionalização baseada na diferenciação

A empresa vende para dezenas de mercados internacionais e, segundo José Pinto, competir no exterior não passa por produzir mais barato. Passa por oferecer algo distinto:

  • design português;
  • qualidade;
  • identidade própria;
  • marca reconhecida.

5. Sustentabilidade integrada no negócio

Outro tema recorrente é a sustentabilidade sendo que a empresa investe em:

  • materiais recicláveis;
  • economia circular;
  • melhoria dos processos produtivos;
  • eficiência energética.

A sustentabilidade é apresentada como uma necessidade competitiva e não apenas como resposta às exigências regulatórias.

6. A importância da marca

José Pinto sublinha implicitamente uma ideia importante:

fabricar é relativamente fácil; construir uma marca reconhecida demora muitos anos.

A Lemon Jelly procura vender muito mais do que calçado:

  • estilo;
  • cor;
  • emoção;
  • personalidade.

É essa capacidade de diferenciação que permite gerar margens superiores.

7. Empresas familiares precisam de profissionalização

Embora valorize profundamente o legado familiar, José Pinto deixa claro que o crescimento exigiu profissionalizar a gestão. A continuidade da empresa depende de se conseguir equilibrar:

  • valores familiares;
  • gestão profissional;
  • inovação contínua;
  • capacidade de adaptação.

Esta preocupação já tinha sido salientada por ele noutras intervenções públicas sobre os desafios das empresas familiares.

Cinco mensagens-chave da entrevista

  1. O legado familiar deve ser preservado, mas nunca deve impedir a mudança.
  2. Criar marcas próprias gera muito mais valor do que produzir para terceiros.
  3. Inovação é uma cultura empresarial, não apenas tecnologia.
  4. Portugal consegue competir internacionalmente através da diferenciação e do design, e não pelo preço.
  5. A profissionalização é indispensável para garantir a continuidade das empresas familiares.

Perspetiva sobre empresas familiares

Para quem estuda ou trabalha com empresas familiares, esta entrevista é particularmente interessante porque ilustra uma trajetória de evolução típica das empresas familiares de sucesso:

  • 1.ª geração: empreendedor fundador, foco na sobrevivência e capacidade produtiva.
  • 2.ª geração: diversificação, investimento e profissionalização.
  • 3.ª geração: consolidação da governação, internacionalização e construção de marcas globais.

Mostra também que a continuidade geracional não resulta apenas da sucessão familiar na perspetiva das pessoas que a lideram ou possuem, mas da capacidade de reinventar continuamente o modelo de negócio, passando de uma lógica industrial baseada em componentes para uma estratégia centrada em marcas, inovação e proximidade ao consumidor.

Esta síntese foi construída a partir da entrevista de José Pinto à Liga dos Inovadores, o podcast do Expresso, dinamizado por Elisabete Miranda e Pedro Lima, que conta o que de inovador e diferenciador está a ser feito pelas empresas em Portugal.

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