A Cerealis, a empresa familiar portuguesa dona das massas Milaneza e Nacional, está em negociações avançadas com o fundo CVC para juntar o seu negócio ao da francesa Panzani. O novo grupo valerá cerca de 1,8 mil milhões de euros, terá perto de mil milhões de faturação e cerca de 1.800 trabalhadores.
Para quem acompanha empresas familiares, o mais importante não são os números. É a decisão que está por trás deles. Uma empresa com mais de um século de história, nas mãos das famílias Moreira da Silva e Domingues que escolheram deixar de deter sozinha este negócio para passar a integrar um grupo europeu muito maior.

Escala é proteção
No setor alimentar, quem vende às grandes cadeias de distribuição precisa de dimensão para negociar preços, comprar matéria-prima em boas condições e investir em inovação. Uma empresa com 400 milhões de euros de receitas é grande à escala portuguesa, mas pequena à escala europeia. Ficar parada, mesmo com 100% do capital, pode significar perder margem e relevância ano após ano.
Juntar forças sem perder identidade
Um dos receios mais comuns nas famílias empresárias é que associar-se a outros signifique perder a alma da empresa. Este negócio mostra que não tem de ser assim. A Panzani continua francesa, com sede em Lyon e o seu atual CEO. A Cerealis continua portuguesa, com sede no Porto e a mesma liderança. Cada uma mantém autonomia operacional e industrial. Partilha-se o que dá escala e preserva-se o que dá identidade.
Parceiros que se completam
A Panzani está presente em França, nos Países Baixos e na Europa Central. A Cerealis está em Portugal, Espanha, Chéquia e Polónia. As duas empresas quase não se sobrepõem, por isso o conjunto vale mais do que a soma das partes. E há um sinal de confiança importante: Pedro Moreira da Silva, da família acionista, vai liderar o grupo combinado.
Os cuidados a ter
Associar-se não é isento de riscos. Partilhar capital é partilhar decisões. A entrada de um fundo de investimento traz normalmente um horizonte de saída, que pode pressionar a estratégia a médio prazo. E manter operações autónomas exige uma governação bem desenhada para que as sinergias aconteçam de facto.
É por isso que estas operações só funcionam quando a família chega à mesa preparada. Isso significa saber o que quer preservar, que papel os familiares terão na empresa e como se tomam decisões quando há novos sócios. Um Protocolo Familiar e acordos parassociais claros são o que permite crescer com outros sem conflitos dentro de casa.
Uma lição para as PME familiares portuguesas
Muitas empresas familiares em Portugal valem o esforço de várias gerações, mas estão presas à ideia de controlo total. Fusões, alianças comerciais, consórcios ou a entrada de parceiros no capital podem ser a forma de garantir que a empresa chega à próxima geração mais forte, e não apenas intacta.
A pergunta que cada família empresária deve fazer não é “como mantemos os 100%?”, mas sim “como garantimos que a nossa empresa continua a crescer?”.

