Na nossa experiência a trabalhar com empresários fundadores, observamos que há um momento que marca uma inflexão. Alguns fundadores enfrentam-no e evoluem com a organização. Outros, pelo contrário, ficam presos num paradoxo: tentam liderar o futuro com uma empresa desenhada para o seu passado.
Os sinais costumam ser subtis, mas claros:
– Decisões que antes eram eficazes agora geram fricção.
– Equipas que já não respondem da mesma forma.
– Iniciativas que não encaixam na cultura existente.
E, acima de tudo, uma sensação difícil de explicar: a empresa avança, mas algo não encaixa totalmente.
A resposta não está em romper com tudo o que veio antes. Mas também não está em protegê-lo por inércia.
O verdadeiro desafio da liderança nesta fase é duplo.
Por um lado, rever honestamente que parte da organização responde a uma versão ultrapassada do próprio fundador.
Por outro, ter a coragem de redesenhar a empresa para a pessoa em que o líder se tornou.
Isto exige algo pouco habitual no mundo empresarial: introspeção.
Porque, em última análise, não se trata apenas de transformar a organização.
Trata-se de aceitar que a liderança também tem biografia.
E que as empresas, em muitos casos, são o reflexo — por vezes desatualizado — de quem as criou.
A pergunta não é se mudaste.
Isso é inevitável.
A pergunta é mais incómoda:
A tua empresa mudou contigo… ou continua ancorada em quem eras há anos?
Ou, ainda mais incómoda:
A empresa mudou para se adaptar ao novo contexto. E tu?
Josep Tàpies é Professor Emérito de Direção Estratégica do IESE Business School, doutorado em Engenharia Industrial pela Universitat Politècnica de Catalunya (UPC) e Mestre em Administração de Empresas.

Este artigo foi escrito por Josep Tapiès, no blog do IESE, em 2026/04/14.
Com a sua permissão, esta tradução e a imagem (gerada por chatgpt nesta data) são de minha responsabilidade.
