Capa: Sete gerações. A inovar. Ilustração de um copo de vinho sobre ondas, com um pequeno barco à vela.

José Maria da Fonseca: inovar há sete gerações

Do vinho de torna-viagem ao vinho sem álcool, a José Maria da Fonseca mostra que, numa empresa familiar, a inovação também se herda — e que cada geração tem de a reinventar.

No século XIX, José Maria da Fonseca enviava os seus vinhos em navios que cruzavam oceanos, à consignação. As pipas que não se vendiam regressavam a casa e, à chegada, o vinho estava melhor. Assim nasceu o “vinho de torna-viagem”. Quase dois séculos depois, a família repete a experiência: pipas de moscatel embarcam no Navio-Escola Sagres para testar um novo Moscatel de Torna-Viagem.

O episódio, contado ao Expresso pelo co-CEO António Maria Soares Franco, resume bem a cultura de uma empresa fundada em Azeitão em 1834. Hoje é gerida pela sétima geração da família, tem mais de 60 marcas, cerca de 650 hectares de vinha e 221 trabalhadores, e exporta metade do que produz.

Cronologia da José Maria da Fonseca: 1834 fundação em Azeitão; século XIX vinho de torna-viagem; 2005 a 7.ª geração regressa de Nova Iorque; 2006 primeiras experiências de vinho sem álcool; 2015 distribuição própria; 2034 200 anos.

Ter razão antes do tempo

Há 20 anos, quando quase ninguém falava em vinho sem álcool, a José Maria da Fonseca já fazia experiências. O sucesso comercial demorou, mas a empresa continuou a aperfeiçoar o processo. Hoje, nas provas cegas, um consumidor comum já tem dificuldade em distinguir o seu vinho sem álcool de um vinho normal, e os clientes procuram-no nas feiras internacionais. A empresa acredita que este segmento poderá chegar a 5% a 10% do mercado num futuro próximo.

O lugar das novas gerações

António Maria Soares Franco tinha uma carreira internacional em Nova Iorque quando, em 2005, o pai o desafiou a entrar no negócio da família. Trouxe experiência feita fora da empresa, algo muito valioso numa sucessão. E faz questão de não ser visto como o filho do patrão: para ele, os familiares que trabalham na empresa devem ser “avaliados como qualquer outro profissional”.

A gestão reflete esse equilíbrio. A comissão executiva tem dois membros da família e um gestor externo. As decisões do dia a dia são rápidas, mas o planeamento é feito a longo prazo, com a consciência de que o património recebido deve ser entregue à geração seguinte pelo menos no mesmo estado. Também por isso, a família não pensa trocar a vinha por outras culturas.

O que as empresas familiares podem aprender

  • A inovação faz parte da identidade. Do torna-viagem ao vinho sem álcool, inovar é uma tradição da família.
  • Pensar a longo prazo. As boas apostas precisam de tempo, e a família tem de estar alinhada para o dar.
  • Experiência fora antes de entrar. Os sucessores que se formam primeiro noutras empresas trazem uma visão nova e mais credibilidade.
  • Exigir profissionalismo aos familiares. O lugar na empresa conquista-se pelo valor que se acrescenta, e não pelo apelido.
  • Abrir a gestão a profissionais externos. É uma combinação que reforça a qualidade das decisões.

A caminho dos 200 anos, celebrados em 2034, a José Maria da Fonseca mostra que a longevidade de uma empresa familiar depende da capacidade de cada geração de inovar sem perder as raízes. São estas as regras que um bom Protocolo Familiar ajuda a definir.

Fonte: Expresso, 22 de outubro de 2026.

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