Existe um paradoxo do sucesso empresarial de que se fala pouco: quanto mais sucesso tem um empresário, mais difícil pode ser para ele ouvir que está a cometer um erro.
No início, normalmente, não é assim. Quando a empresa é pequena, o mercado corrige de imediato. Os clientes protestam, os fornecedores pressionam, os bancos dizem que não e a própria equipa questiona muitas decisões. Há pouca margem para nos enganarmos. Mas, com os anos, algo muda. A empresa cresce, o empresário acumula experiência e acertou muitas vezes quando outros duvidavam. A sua intuição demonstrou ser valiosa, tomou decisões difíceis e conseguiu seguir em frente. E, quase sem se dar conta, pode começar a acontecer algo perigoso: há cada vez menos pessoas dispostas a dizer-lhe que não.
Não necessariamente porque seja autoritário. O problema está na posição que ocupa. Os gestores sabem quem é o proprietário, os consultores sabem quem paga os seus honorários, os filhos sabem quem criou a empresa e os membros do conselho conhecem o peso do seu percurso. Todos eles, consciente ou inconscientemente, podem começar a medir as suas palavras. E assim o empresário corre um risco peculiar: estar rodeado de pessoas competentes e, ainda assim, ouvir demasiado pouco aquilo que precisa de ouvir.
Por isso, há uma pergunta que qualquer empresário proprietário deveria fazer a si próprio de vez em quando: quem tem autorização para me contrariar?
Não me refiro a alguém que discorda por sistema, nem a quem gosta de fazer de advogado do diabo. Refiro-me a uma pessoa com critério, independência e conhecimento suficiente para poder dizer, quando chegar o momento: «Acho que desta vez não tens razão». E, sobretudo, para o dizer antes de isso se tornar evidente para todos.
Pode ser um conselheiro independente, um gestor de confiança, um sócio, um amigo com experiência empresarial, ou até um filho ou uma filha que tenha adquirido critério próprio suficiente. O importante não é tanto quem desempenha esse papel, mas que alguém o desempenhe.
Mas falta ainda o mais difícil. Não basta ter por perto alguém capaz de nos dizer que estamos enganados. É preciso conseguir que essa pessoa se atreva a fazê-lo. E isso depende, em grande medida, do próprio empresário.
Se cada discordância for recebida como uma deslealdade, as discordâncias acabarão por desaparecer. Se quem coloca uma dúvida ficar de fora da conversa importante seguinte, os outros aprenderão rapidamente a lição. E se apenas prestarmos atenção àqueles que confirmam as nossas intuições, podemos acabar rodeados de excelentes profissionais que, prudentemente, aprenderam a ficar calados.
Um bom conselho de administração pode ajudar muito, mas também não basta encher uma mesa de pessoas prestigiadas. A questão não é quantos conselheiros temos, mas se algum deles se sente suficientemente livre para dizer aquilo que o proprietário preferiria não ouvir.
E talvez um dos sinais mais claros de maturidade de um empresário seja saber quem lhe pode dizer que está a cometer um erro e, sobretudo, ter criado as condições para que essa pessoa nunca deixe de o fazer.

Josep Tàpies é Professor Emérito de Direção Estratégica do IESE Business School, doutorado em Engenharia Industrial pela Universitat Politècnica de Catalunya (UPC) e Mestre em Administração de Empresas.
Este artigo foi escrito por Josep Tapiès, no blog do IESE, em 2026/09/29.
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